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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Nos grãos de areia

É com imensa saudade que me lembro de minha infância, perdida em minhas memórias de dias passados a pouco, sinto falta das corridas às vezes vestidos, às vezes como vim ao mundo, sobre a areia branca, fina e macia da praia do francês, sob a estrela amarela brilhando intensamente lá no alto deixando o oceano mais azulado do que o normal, lembro-me com satisfação e nostalgia, dos meus amigos, dos que já foram e daqueles que nunca irão, de quando brincávamos de pique – esconde garrafão, amarelinha, de correr por entre os coqueiros e de cantarola “... se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de brilhante, só pro, meu amor passar...”, do meu primeiro dos primeiros grandes amores que não me levara a sério por sermos tão novos e tão amigos, do meu primeiro beijo ali sob a luz do luar, a momentos em que as lágrimas escapam-me dos olhos quando penso que ficávamos todos juntos, sentados a observar o mar, vendo aquelas paredes de água azulada, enormes, magníficas, com suas bordas brancas, vindo beijar a areia, repetidas vezes e nos lavar os pés, nos perguntávamos como algo podia ser repleto de tamanha perfeição? A resposta só podia ser uma, Deus criou esse pedacinho de mundo pessoalmente.
Caminho por outros caminhos, distantes de minha infância, pensando o quanto a vida podia ser mais simples, singela, como o sorriso de uma criança, caminho, por aqueles mesmos caminhos e vejo que já não são mais os mesmos caminhos, a infância já é outra, a minha, mudou a paisagem, destruiu, criou, transformou, evoluiu e já encontro poucas daquelas muitas pedras da época. Tenho saudade de meus pais, dos meus oito anos de vida, do homem que me ensinava a nadar, com um belo sorriso estampado no rosto, balançava-me de um lado a outro da canoa dizendo que eu precisava crescer sem medo, com dignidade, eu deveria viver a vida intensamente, seus ensinamentos os quais me inspiravam e desafiavam para cada vez fazer e ser melhor do que eu estava. De minha mãe a qual venerava por sua determinação e garra para enfrentar todos os dias as batalhas, aturar um bar, um restaurante, um supermercado, o marido boêmio, um casal de filhos e as outras mulheres daquele boêmio, a venero hoje por ter assistido tudo de camarote e poder dizer que ela venceu tudo isso.
Como era bom deitar a noite sobre a areia fria e namorar as estrelas (não as - contava, pois tinha medo das verrugas que os velhos diziam causar) enquanto os mais velhos derramavam a paixão sobre a praia, pensava no dia em que fosse eu que se estive no lugar deles o que eu faria? Vi que no lugar desses casais eu ficava olhando a areia e vendo-me ali deitado repetindo toda a cena. Perco-me no tempo quando estou dentro de um túnel voltando a dez, doze anos atrás, despreocupado, feliz, cantando em cima da mesa de um restaurante enquanto os clientes se divertem e acham lindo aquele menininho ali, sem vergonha, deparo-me com os dias alegres e tristes de natal, o qual ficava acordado até tarde para flagrar papai Noel deixar meu presente e não entendia como ele sempre adivinhava o que exatamente eu queria em seguida a tristeza tomava conta da euforia por lembrar que nós éramos os únicos a não ter uma bela ceia de natal (mesmo sendo uma das famílias com maiores posses dali), por saber que não tínhamos amor suficiente ali para isso.
Meu pai sempre dizia: “eu era feliz e não sabia”. Eu acredito que eu sabia sim, o quanto eu era feliz, o quanto eu vivi bem a minha infância, pai, mãe, meus amigos de hoje e de todo o sempre. Caros leitores dessa crônica (prefiro referir-me como síndrome da velhice batendo a porta) eu era feliz sim e sabia, o quanto eu era feliz, só queria ter aproveitado mais.
Postado por Luiz Siqueira às 07:32 Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest

2 comentários:

Anônimo disse...

Que infância gostosa Lú, bonita ... até eu senti saudade !!! bjo

23 de setembro de 2009 às 06:15
LADY disse...

exatamente assim que acontece em todos os nossos momentos, passamos por eles sem dar muito valor, mas lá na frente vemos o que perdemos, ou mehor, o que deixamos de ganhar. Não conseguimos enxergar a tempo de aproveitar cada segundo de nossa felicidade, mas sabemos que somos felizes em todos os momentos. A melhor parte de tudo isso, é recordar desses momentos com saudade, saudade de um tempo que não volta mais, porém que a memória reflete para o futuro de aprendizados e quem sabe até de reviver estas realidades.

1 de novembro de 2009 às 14:55

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